Caux, 29 de julho de 2003

As religiões podem ser parceiras no caminho em direção à paz?

Senhoras e senhores,

Em primeiro lugar, exprimo a minha alegria por me encontrar hoje aqui, neste Centro de Caux, pleno de iniciativas voltadas ao fortalecimento dos alicerces morais e espirituais da sociedade e à promoção do encontro pacífico entre as culturas, as civilizações e as religiões. Agradeço, de modo especial, o doutor Cornélio Sommaruga por me ter convidado a tomar a palavra neste importante Seminário Inter-religioso.

Pediram-me para abordar o tema: «As religiões podem ser parceiras no caminho em direção à paz?». 
Como todos sabemos, essa é uma pergunta de grande importância e de extrema atualidade.
Muitos interpretam a propagação do terrorismo, bem como as guerras em várias partes do mundo, que buscam combatê-lo, além da permanente tensão no Oriente Médio, como sintomas de um possível “choque entre civilizações”. Tal fato seria assinalado e, até mesmo, incentivado por se pertencer a diversas religiões. Porém, essa interpretação dos fatos, se os lermos atentamente, é produto de extremismos e fanatismos de várias espécies, que desvirtuam a religião, e também é muito parcial.
Com efeito, hoje, como nunca antes, fiéis e responsáveis de várias religiões sentem o dever de cooperar para o restabelecimento do bem comum da humanidade. Várias organizações, tal como a Conferência Mundial das Religiões pela Paz, ou iniciativas, como a Jornada de Oração pela Paz, convocada por João Paulo II, em Assis, em janeiro de 2002, são uma prova disso.
Naquela ocasião, em Assis, o Papa afirmou, em nome de todos os presentes, que “quem utiliza a religião para fomentar a violência, contradiz a sua inspiração mais autêntica e profunda” e que “nenhuma finalidade religiosa pode justificar a prática da violência do homem pelo homem”, porque “ofender o homem, em última análise, é ofender Deus”1

Após os atentados do dia 11 de setembro de 2001, a humanidade descobriu, atônita, a natureza do grande perigo que é o terrorismo. Este não é uma guerra como as outras, porque as guerras – atualmente existem cerca de 40 em todo o planeta – normalmente são fruto do ódio, do descontentamento, das rivalidades, de interesses pessoais ou coletivos.
Ao invés disso, o terrorismo, como o Papa afirmou, é fruto também de forças do Mal com o M maiúsculo, das Trevas.
Pois bem, forças desse tipo não são combatidas com meios unicamente humanos, diplomáticos, políticos e militares. Precisamos mobilizar as forças do Bem com o B maiúsculo. E o Bem com B maiúsculo é, como sabemos, Deus, e tudo o que provém dele. Portanto, é possível combater o Mal com as forças espirituais, com a oração, por exemplo, com o jejum, como fizeram os representantes das religiões do mundo na cidade de São Francisco.
Porém, gostaria de afirmar que somente a oração não basta. 
Nós sabemos que as causas do terrorismo são muitas, mas a mais profunda é o insuportável sofrimento de um mundo dividido entre pobres e ricos, que gerou e gera ressentimentos incubados interiormente por muito tempo, que, por sua vez, geram violência e vingança.
Exige-se mais igualdade, mais solidariedade, acima de tudo uma distribuição mais justa dos bens. É claro que os bens não se movem nem caminham sozinhos. São os corações que devem se mobilizar e viver a comunhão!
Para atingir esse objetivo, é necessário difundir entre o maior número de pessoas possível, a ideia e a práxis da fraternidade e, em vista da amplitude do problema, difundir a ideia de uma fraternidade universal. Os irmãos sabem cuidar dos irmãos, sabem como ajudá-los e compartilhar o que possuem.
Para responder a esse desafio sem precedentes, a colaboração entre as religiões é decisiva.
Se não fossem as grandes tradições religiosas, de onde mais poderia partir uma estratégia da fraternidade capaz de reestruturar inclusive as relações internacionais?

Os enormes recursos espirituais e morais, a contribuição de uma idealidade, de aspirações à justiça, de empenho em favor dos mais necessitados, além do peso político que podem ter os milhões de fiéis, todos esses são elementos que emergem do sentimento religioso e que, se canalizados para o campo das relações humanas, poderiam certamente traduzir-se em ações capazes de influenciar positivamente a Ordem internacional.
Já se faz muito no campo da solidariedade internacional, especialmente por parte de organizações não-governamentais. Mas falta uma coisa: os Estados devem fazer escolhas políticas e econômicas capazes de construir uma comunidade de povos fraterna e comprometida com a realização da justiça. 
De fato, diante de uma estratégia de morte e de ódio, a única resposta válida é construir a paz na justiça. No entanto, sem a fraternidade não existe a paz. Só a fraternidade entre indivíduos e povos pode garantir um futuro de convivência pacífica.
[...]
1Giovanni Paolo II, Discorso ai rappresentanti delle varie religioni del mondo, Assisi 24.1.2002 in http://www.vatican.va.

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